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O fim do “sonho da estabilidade”

  • há 8 horas
  • 3 min de leitura

Durante décadas, venderam para nós uma narrativa muito clara: estude, consiga um bom emprego, compre um imóvel, construa uma família, aposente-se com segurança. O chamado “sonho da estabilidade” era quase um roteiro oficial da vida adulta.

Só que esse roteiro começou a falhar.


Não de forma escandalosa. Não com um anúncio oficial. Mas silenciosamente, através da inflação que corrói planos, dos mercados que oscilam, das profissões que desaparecem, das empresas que demitem por e-mail e das gerações que simplesmente não conseguem repetir o percurso dos pais.


A estabilidade deixou de ser promessa. E virou ficção.



A geração que não herdou o mesmo tabuleiro


Se para os nossos pais estabilidade era meta realista, para muitos millennials e Gen Z ela soa quase ingênua. O modelo de carreira linear, entrar jovem numa empresa e sair aposentado, já parecia raro antes da digitalização massiva. Depois da aceleração tecnológica e da consolidação do trabalho híbrido e remoto, tornou-se exceção.


Plataformas como LinkedIn e Upwork ajudam a construir carreiras múltiplas, mas também normalizam trajetórias fragmentadas. O currículo virou mosaico. A renda, muitas vezes, também.


Ao mesmo tempo, movimentos como o FIRE (Financial Independence, Retire Early) ganharam força em fóruns e redes, prometendo liberdade financeira acelerada, quase como uma resposta ansiosa à percepção de que o sistema tradicional já não entrega garantias.


Não é que as pessoas desistiram de segurança. Elas perceberam que ela não vem mais no formato antigo.


A casa própria já não é símbolo absoluto


Durante décadas, comprar um imóvel era rito de passagem. Hoje, em muitas capitais, é um projeto que exige endividamento prolongado ou ajuda familiar. Em cidades como São Paulo, Lisboa ou Nova York, o valor do metro quadrado deslocou o sonho para mais longe, ou o transformou em escolha estratégica, não emocional.


O aluguel deixou de ser fracasso e passou a ser mobilidade.


A geração atual valoriza a possibilidade de mudar de cidade, trocar de país, ajustar rota. A estabilidade geográfica, antes símbolo de sucesso, agora pode soar como limitação.


Segurança virou habilidade, não destino


Talvez a maior mudança seja essa: estabilidade deixou de ser um lugar para se chegar e virou uma competência para desenvolver.


Aprender rápido.

Mudar de área.

Criar múltiplas fontes de renda.

Construir presença digital.

Investir.

Reaprender.

O novo “seguro” é a adaptabilidade.


E isso traz um efeito colateral importante: viver em constante ajuste gera cansaço crônico. Se antes a ansiedade era “chegar lá”, hoje ela é “me manter relevante”.


A liberdade que também pesa


Existe um lado positivo nesse colapso do roteiro tradicional. A quebra da estabilidade obrigatória abriu espaço para escolhas mais autorais.


Pessoas trocando carreiras estáveis por projetos independentes.

Profissionais saindo do corporativo para criar negócios digitais.

Adultos que decidem não comprar imóvel.

Gente que prefere experiências a patrimônio.


Mas a liberdade tem custo psicológico: quando não há trilho fixo, toda decisão parece definitiva. E toda falha parece exclusivamente individual.


Sem o roteiro pronto, a responsabilidade é total.


O que estamos realmente buscando?


Talvez o “fim do sonho da estabilidade” não seja o fim do desejo de segurança, mas o fim da crença de que ela virá pronta, garantida e permanente.


A estabilidade do século XX era estrutural.

A estabilidade do século XXI é emocional.


Ela está menos ligada ao contrato de trabalho e mais à capacidade de lidar com incerteza. Menos ao imóvel quitado e mais à reserva financeira. Menos ao cargo fixo e mais à identidade flexível.


O sonho não acabou. Ele mudou de formato.


E talvez a pergunta mais honesta agora não seja “como eu me estabilizo?”, mas sim:

Como eu construo segurança em um mundo que não promete ficar estável?

 
 
 

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