A romantização do básico
- há 8 horas
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Café coado. Camiseta branca. Mesa de madeira. Domingo sem planos.
De repente, o básico virou aspiracional.
Nas redes sociais, o excesso perdeu força para a estética do simples: casas minimalistas, rotinas silenciosas, receitas com poucos ingredientes, looks neutros, playlists calmas. A vida comum, aquela que antes parecia sem graça, ganhou filtro, luz natural e legenda reflexiva.
Mas a pergunta que atravessa essa tendência é incômoda:
Estamos simplificando por escolha… ou por exaustão?

O cansaço do excesso
Depois de uma década dominada por performance, ostentação e produtividade extrema, a saturação se tornou inevitável. A lógica do “mais”, mais metas, mais consumo, mais estímulos, mais exposição, cobrou seu preço.
As próprias plataformas que alimentaram o excesso hoje premiam o contrário. No Instagram, conteúdos com estética clean e rotina “real” performam melhor do que produções hiperproduzidas. No TikTok, vídeos de “vida comum”, arrumar a casa, fazer café, organizar agenda, acumulam milhões de visualizações.
O ordinário virou entretenimento.
Não porque ele seja novo. Mas porque ele se tornou raro.
O básico como luxo silencioso
Existe também um deslocamento simbólico acontecendo.
Em um cenário de instabilidade econômica, inflação persistente e trabalho fragmentado, o básico passou a representar algo que não é tão simples assim: estabilidade emocional.
Comer em casa.
Dormir cedo.
Ter tempo.
Usar a mesma roupa confortável.
Repetir rituais.
O básico virou sinônimo de controle.
Em cidades como São Paulo ou Lisboa, onde o custo de vida pressiona escolhas, viver de forma mais simples deixou de ser apenas estética, é também estratégia financeira. O minimalismo, que antes era filosofia, virou pragmatismo.
E quando algo deixa de ser automático e passa a ser difícil, ele ganha aura de privilégio.
A estética da normalidade
Existe ainda uma camada interessante: a normalidade passou por rebranding.
Durante anos, a cultura digital incentivou vidas extraordinárias, viagens constantes, closets infinitos, restaurantes caros, agendas lotadas. Hoje, o que chama atenção é a rotina silenciosa.
Mas há uma curadoria invisível nesse “básico”. A cozinha simples é bem iluminada. O café coado está em xícara de design. A camiseta branca tem corte perfeito.
O básico é cuidadosamente editado.
Romantizamos a simplicidade, mas ela ainda é performada.
Escolha consciente ou adaptação ao limite?
Talvez o ponto central não seja se a vida simples é melhor ou pior. A questão é entender o que motivou essa virada.
Existe um desejo legítimo de desacelerar.
Existe um esgotamento coletivo.
Existe uma geração que percebeu que não precisa provar nada o tempo inteiro.
Mas também existe limitação econômica.
Existe medo de risco.
Existe frustração com promessas que não se cumpriram.
Quando o extraordinário se torna inacessível, o ordinário vira narrativa.
E não há problema nisso, desde que haja consciência.
O valor real do simples
O básico não precisa ser fuga. Ele pode ser escolha estratégica.
Cozinhar pode ser autocuidado.
Repetir roupa pode ser sustentabilidade.
Ficar em casa pode ser presença.
Reduzir estímulos pode ser saúde mental.
O risco está em transformar a simplicidade em nova régua moral. Como se desejar conforto maior, ambição ou crescimento fosse superficial.
O excesso cansa.
Mas a idealização do pouco também pode aprisionar.
Talvez a maturidade esteja no equilíbrio: saber que o básico pode ser suficiente, mas não precisa ser limite.




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