A crise da originalidade na era da IA
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Quando criar ficou barato e ser relevante ficou caro.
Nunca se produziu tanto conteúdo. E paradoxalmente, nunca foi tão difícil capturar atenção real.
Ferramentas como OpenAI e Midjourney reduziram drasticamente o custo de criação. O que antes exigia equipe, tempo e orçamento hoje pode ser feito em minutos. A barreira técnica caiu. A barreira estratégica subiu.
Segundo relatórios recentes de mercado, o volume de conteúdo publicado por marcas cresceu exponencialmente nos últimos dois anos, enquanto o engajamento médio orgânico caiu em diversas plataformas. Mais posts. Menos atenção. Mais produção. Menos impacto.
O problema não é excesso de conteúdo.
É excesso de conteúdo parecido.

A padronização invisível
Quando milhares de criadores utilizam modelos de prompt semelhantes, treinados nas mesmas bases culturais globais, o resultado tende à homogeneização estética.
• Textos com a mesma estrutura persuasiva.
• Artes com iluminação e composição similares.
• Roteiros com ritmo previsível.
• Narrativas com as mesmas “jornadas emocionais”.
A IA não inventa cultura, ela reorganiza cultura existente.Isso acelera tendências, mas também esgota estilos em tempo recorde.
O ciclo de hype encurtou. O que antes durava anos, agora dura meses.
A economia da abundância criativa
Em termos de mercado, estamos vivendo uma mudança clássica de oferta e demanda:
Oferta de conteúdo: praticamente infinita.
Capacidade de atenção: biologicamente limitada.
A atenção virou ativo escasso. E ativos escassos ficam caros.
Marcas que antes competiam por qualidade técnica agora competem por diferenciação perceptiva. A régua subiu. Não basta ser bem produzido. Precisa ser memorável. E memorável não nasce da média estatística.
A nova vantagem competitiva: ponto de vista
Se qualquer pessoa pode gerar um artigo “bom”, o diferencial deixa de ser execução e passa a ser visão.
O mercado começa a valorizar:
• Curadoria com critério.
• Posicionamento claro.
• Repertório cultural autoral.
• Narrativa conectada à realidade do público.
Originalidade deixa de ser estética e vira posicionamento.
Não é mais sobre fazer algo nunca visto.
É sobre dizer algo que só você diria daquele jeito.
O risco da mediocridade eficiente
A IA é excelente em gerar o “acima da média”.Mas o mercado não remunera média. Ele remunera destaque.
Existe um risco silencioso surgindo: a mediocridade eficiente.
Conteúdos corretos, bem estruturados, otimizados para SEO e completamente esquecíveis.
Empresas que substituem integralmente o pensamento estratégico por automação criativa podem ganhar velocidade no curto prazo. Mas perdem identidade no médio. E identidade é ativo de longo prazo.
Dados, algoritmo e a ilusão da performance
Algoritmos premiam retenção e interação rápida. A IA ajuda a otimizar para isso. Mas otimizar para o algoritmo não significa construir marca.
Há uma diferença entre:
• Conteúdo que performa.
• Conteúdo que posiciona.
• Conteúdo que constrói reputação.
Na era da IA, muitos estão focados apenas no primeiro.
O que o mercado começa a entender
Empresas mais maduras já estão migrando para um modelo híbrido:
IA para escala.
Humano para estratégia.
IA para eficiência.
Humano para diferenciação.
Porque a pergunta deixou de ser “como produzir mais?”
E passou a ser “como ser lembrado?”
A provocação final
A crise da originalidade não é uma crise criativa.
É uma crise de profundidade.
Se todos têm acesso à mesma ferramenta, o diferencial não é a tecnologia, é o repertório, a vivência, o risco assumido e a coragem de ter opinião.
No fim, a IA não está eliminando criadores.
Ela está eliminando criadores genéricos.
E isso pode ser desconfortável, mas também é um filtro poderoso.




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